quarta-feira, 11 de junho de 2014

Criatividade nas férias

1.     Qual a importância de estimular a imaginação e a criatividade das crianças para o seu desenvolvimento cognitivo?
A criatividade e a imaginação são dois dos ingredientes básicos no desenvolvimento cognitivo de cada criança. Estas duas competências estimulam a criança a explorar o mundo à sua volta, a responder aos desafios diários e a procurar respostas adequadas às várias situações com que se vai deparando ao longo do seu crescimento.
A criatividade e a imaginação quando desenvolvidas na criança, abrem-lhe muitas portas e contribuem para melhorar a sua qualidade de vida uma vez que a tornam mais apta para enfrentar os desafios diários e resolver problemas. Enquanto a criatividade envolve a criação de novos conceitos ou ideias, a imaginação permite a representação de objetos com qualidades específicas através dos sentidos e é com base no pensamento criativo e na imaginação que as inovações são postas em prática e que são dadas respostas a situações menos convencionais.
A criatividade e a imaginação são fundamentais para o desenvolvimento de outras competências tais como a curiosidade (disposição permanente para investigar, procurar entender e obter novas informações sobre as coisas que nos cercam); o confronto com desafios (atitude positiva segundo a qual cada problema é uma oportunidade de conceber algo novo e valioso); a flexibilidade (adoção de diferentes abordagens na solução de um problema) e a perseverança (persecução dos seus objetivos mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis).
De acordo com as ciências cognitivas, a criatividade assume uma grande importância no desenvolvimento da criança, estando relacionada com o conjunto de processos simultâneos, que lhe permitem ter percepção do que ocorre à sua volta através de uma atitude ativa, de forma a obter novas ideias ou usar territórios ainda não explorados. Os seus cérebros ainda em “expansão” no que toca ao estabelecimento e fortalecimento das suas ligações neuronais não têm um limite de combinações especificas e, neste sentido, quanto mais aprofunda e variada for a exploração que cada criança faz do seu meio, mais apta se tornará para dar resposta às situações futuras.

2.     A participação dos pais neste tipo de atividades é determinante; ou é um papel que cabe apenas aos educadores e professores? Se sim, porquê?
 Quando se refere o termo Educação vem-nos à ideia a instituição escolar, mas a educação e desenvolvimento de cada criança não começa na escola mas no seio familiar, sendo por isso fundamental envolver os pais e os familiares mais próximos no processo de construção de cada criança.
 Os pais são uma peça chave no desenvolvimento da criatividade e da imaginação, uma vez que são os seus adultos de referência, isto é, são as primeiras pessoas que as crianças tentam imitar e agradar, tomando-os como exemplos de comportamentos adequados. Nesse sentido têm a responsabilidade de fomentar junto dos seus filhos as suas manifestações criativas, não só valorizando/elogiando os desenhos, as invenções ou as novas aprendizagens como também procurando fazer com eles algumas atividades que explorem o seu lado criativo.
 Os pais devem permitir à criança vivenciar experiências estimulantes de sua curiosidade natural e fortalecedoras de sua autoestima e certamente a sua criatividade e imaginação aflorará com maior facilidade. Segundo alguns autores a influência da família é bidirecional: os pais influenciam as crianças, estimulando-as a ir ao teatro; mas também as crianças podem influenciar os pais, quando demonstram interesse por algo e os pais respondem a isso.

3.     As férias são uma altura propícia para este tipo de atividades? Em que sentido? Como é que se devem processar as atividades (devem ser planeadas, com que frequência devem ser feitas, deve existir algum tipo de obrigatoriedade para a realização das mesmas, os principais interesses e gostos das crianças devem ser tidos em consideração? etc...)
   As férias são, por excelência, a altura do ano em que pais e filhos passam mais tempo de qualidade em família. Deste modo, este é o período mais propício para realizar atividades que não são exploradas durante o ano ou fazer alguns exercícios que requeiram mais tempo e energia.
  No período de férias é também mais fácil introduzir alguns jogos e atividades prazerosas, no decorrer das rotinas diárias, que envolvam toda a família: um passeio a um sitio diferente, um filme para todas as idades ou uma conversa mais alargada são alguns exemplos.
   No que toca à estimulação da criatividade e da imaginação, as atividades podem ser de vária ordem, deste as mais estruturadas (como uma ida ao teatro ou ao cinema), às mais simples (como a realização de um desenho livre ou a leitura de uma história).
   Sendo a criança curiosa por natureza, as varias tarefas devem ir de encontro ao seu interesse, sendo-lhe apresentadas em forma de jogo. Quanto mais envolvidas nas várias atividades maior o interesse e predisposição com que participam nas mesmas e mais efetivos serão os resultados obtidos com a tarefa.

4.     Até que idade é que este tipo de atividades são importantes para o desenvolvimento da criança?
   Alguns autores salientar a importância de estimular a imaginação e a criatividade das crianças sobretudo entre os dois e os seis anos, quando o jogo imaginativo ocorre com grande frequência podendo esta ser mais fortemente consolidada nas rotinas individuais.
   Neste período em especifico os jogos imaginativos assumem um papel fundamentar nas tarefas de desenvolvimento uma vez que permitem à criança explorar o seu contexto e procurar respostas sobre o mundo à sua volta. Permitem-lhe ainda ganhar confiança nessa exploração, ao serem capazes de ir superando os desafios com que se deparam.
   No entanto a imaginação e a criatividade não devem ser trabalhadas apenas neste período em especifico. Dada a sua importância para a estruturação da capacidade de resolver problemas, é fundamente que o pensamento criativo e a imaginação sejam estimulados transversalmente ao desenvolvimento dos sujeitos, desde o nascimento à idade adulta.
   Em idade escolar é importante que a criança/jovem seja ensinada a levantar questões, elaborar e testar hipóteses, discordar, avaliar criticamente fatos, conceitos, princípios, ideias sendo fundamental desenvolver o seu pensamento critico e o espírito de argumentação que lhe serão muito úteis no decorrer da vida adulta.

5.     Que tipo de atividades podem ser feitas em família para estimular a imaginação e a criatividade das crianças?
       Existem várias actividades a que os pais podem recorrer para desenvolver e estimular a imaginação e criatividade dos seus filhos, nomeadamente permitindo-lhe brincar, explorar e entender o mundo que os rodeia através de todos os seus sentidos.
A brincadeira deve ser alegre, leve e repleta de prazer, onde cada criança possa desfrutá-la de maneira simples e divertida.
       De entre várias atividades, são de salientar algumas que ajudam a incentivar e a despertar o interesse pelas actividades criativas, tais como:
- desenhar, a pintar, a fazer colagens, a moldar com plasticina, barro ou outros materiais;
- explorar materiais de construção, como legos, peças de madeira;
- visitar museus, exposições, teatro, cinema, concertos;
- encontrar outros finais para histórias que a crianças gosta e que conhece;
- ouvir vários tipos de música e poder acompanhar obras conhecidas com instrumentos para crianças;
- ler diversos tipos de livros, completar bandas desenhadas com base nos desenhos;
- contar histórias a partir de imagens;
- jogar ao “faz-de-conta”

       Em tempo de ferias, pode ainda aproveitar o próprio contexto aproveita para
- construir com os seus filhos os seus próprios brinquedos reutilizando materiais que tenha acessíveis(carrinhos de rolamentos, bonecadas de trapos, jogos de tabeleiro);
- fazer construções de areia sob os comandos das crianças;
- imaginar contornos conhecidos para as nuvens;
- encontrar significados ou novas formas de utilização para objetos conhecidos;
- brincar no parque, subir e descer o escorrega, contornar obstáculos.

  No decorrer das várias atividades é importante salientar que, mais do que conseguir um resultado perfeito é realizá-las com prazer procurando explorar com a criança varias formas de levar a cabo a tarefa que estão a fazer conjuntamente.
  A infância é o período por excelência em que a criatividade poderá ser desenvolvida e estimulada, relacionando-se em muitos aspectos com a imaginação e a motivação.


Entrevista Escrita para a revista Dica  (Agosto, 2012)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os primeiros brinquedos

O que devemos oferecer ao bebé para que se entretenha e estimule o seu desenvolvimento?
                                             
As brincadeiras e os brinquedos são essenciais para o desenvolvimento das crianças desde tenra idade. É de forma lúdica e interativa que vão assimilando as suas primeiras aprendizagens e que vão dando significado às várias vivências do seu dia-a-dia.
As brincadeiras são a base do crescimento e do desenvolvimento dos bebés e é desde o seu nascimento que começam a desenvolver a sua perceção (visual, auditiva e tátil), de acordo com os estímulos que recebem e da forma como interagem com eles. O seu primeiro brinquedo é o próprio corpo e é através dele que vão conhecendo o mundo, procurando outros brinquedos a explorar e adquirindo competências que lhe vão permitindo, progressivamente, experienciar melhor o seu entorno: começa por conseguir manipular os objetos, vai adquirindo a capacidade de se locomover e seguidamente consegue mexer e manusear, não só os objetos que lhe estão próximos como também os que lhe estão distantes. As suas brincadeiras permitem-lhe também estimular as suas várias capacidades, progressivamente e ao seu ritmo, complexificando as suas competências globais e a forma como resolve os problemas com que se depara.
Ao longo dos últimos anos, vários investigadores têm vindo a demonstrar a importância dos jogos e das brincadeiras para o desenvolvimento cognitivo dos bebés desde tenra idade. Tal facto é explicado porque a aquisição do conhecimento deriva da interação da criança com o seu meio. Durante as brincadeiras o bebé vai incorporando o mundo à sua maneira e vai interpretando a realidade que a circunda  de forma ativa, agradável, envolvente e interativa, fomentando o seu desenvolvimento intelectual.
Durante as brincadeiras, as crianças exploram regras e definem limites, ao mesmo tempo que estimulam a sua capacidade criativa e a imaginação. É também através das brincadeiras que as crianças vão desenvolvendo a sua capacidade empática, isto é, que vão aprendendo a colocar-se no lugar dos outros e a perceber os seus pontos de vista.
As brincadeiras são também a forma preferida do bebé desenvolver as suas habilidades cognitivas uma vez que lhe permitem estimular o seu imaginário infantil, ampliar a perceção de si, dos outros e do mundo, fomentar a sua curiosidade e a sua autonomia, ao mesmo tempo que proporcionam o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção”.
A escolha dos brinquedos ideais para cada bebé varia de acordo com a idade, com o grau de maturidade e com os gostos que apresentam desde pequenos. Estes devem permitir treinar as suas habilidades e suscitar o seu interesse pelo brinquedo, proporcionando ao bebé o prazer de o explorar. Os primeiros brinquedos (extra corporais) a chamar a sua atenção, são os que estimulação a sua perceção sensorial – nestas idades os brinquedos com diferentes cores, sons, texturas são habitualmente os seus preferidos e permitem, respetivamente, estimular a sua visão, a sua audição e o seu tato.
Um brinquedo bem escolhido permite aperfeiçoar a coordenação motora, estimular a fala e a inteligência e desenvolver habilidades gerais potenciando um bom desenvolvimento afetivo, cognitivo e social de cada criança. Durante as brincadeiras as crianças estimulam também as suas capacidades simbólicas e, desta forma, através dos jogos do faz de conta, testam e experimentam diferentes papéis sociais, exprimem a agressividade, aumentam as experiências e elaboram as experiências traumáticas vividas. É também nas suas brincadeiras que exteriorizam os seus medos e angústias e encontram estratégias para lidar com as suas emoções.

Na hora de escolher um brinquedo
Ao pensar em adquirir um brinquedo é fundamental pensar nele como uma ferramenta útil para potenciar o desenvolvimento da criança a quem ele se destina. Neste sentido, é fundamental que ele se adeque à sua idade, aos seus gostos e que seja apropriado para o seu nível de desenvolvimento. No entanto há que considerar que os brinquedos também têm restrições, que vão desde os materiais com que são feitos, ao tamanho das suas peças e às suas especificidades próprias.
Muitos dos brinquedos preferidos das crianças são objetos caseiros, que estão habituadas a ver os adultos utilizar e que, por isso mesmo, vão despertando a sua curiosidade e vontade de os explorar.
Quando a opção é adquirir, a primeira regra está em perceber o valor real dos brinquedos, comparando o prazer que eles vão suscitar à criança comparado com o custo envolvido. Há que ter em consideração que nem sempre os brinquedos mais caros são os mais satisfatórios.
A segunda regra está relacionada com a resistência do brinquedo. Por muito interessante e estimulante que ele seja há que considerar se pode ser explorado pela criança sem quebrar minutos depois – para além de ser uma mau investimento, poderá ser frustrante para a criança ter brinquedos com os quais não pode brincar ou que se estragam com facilidade nas primeiras brincadeiras.
Há também que ter em conta que cada criança tem o seu tipo de brinquedo preferido. Embora não se deva cingir apenas aos seus gostos e lhe deva proporcionar experiências variadas, se a criança não se interessar pelo brinquedo, não o irá explorar.
É fundamental que os brinquedos sejam adequados à idade e à maturidade de cada criança. Para além das sugestões dos fabricantes há que pensar se o brinquedo em questão pode desafiar o bebé e suscitar a sua curiosidade (e não frustrá-lo). Por muito interessante que seja o brinquedo, se não estiver ajustado às habilidades da criança, por ser demasiado infantil ou exigente, será um mau investimento.
Os brinquedos devem também ser seguros, de materiais adequados e com tamanhos que não impliquem qualquer tipo de perigo para as crianças. Os brinquedos devem ser inquebráveis e atóxicos, de preferências fáceis de lavar e sem contornos pontiagudos. Devem ter um tamanho suficiente para que a criança não os introduza no nariz ou nos ouvidos e não os tente engolir. Em caso de dúvida deve inspecionar o brinquedo antes de o dar à criança e observar as primeiras vezes em que ela brinca com este.
Os brinquedos devem ser dados à criança com moderação, sem excessos. Ter demasiados brinquedos ou receber muitos de uma vez provoca atitudes de menosprezo e de falta de interesse pelas brincadeiras.

Brinquedos ajustados a cada idade
 - dos 0 aos 12 meses os brinquedos devem procurar estimular a perceção visual, auditiva e tátil dos bebés. Neste sentido os jogos devem ser coloridos, com diferentes formas e com sons, ritmos e musicas e com texturas distintas. Os brinquedos devem ter cores vivas, sons melódicos e atraentes, texturas interessantes e variadas. Nestas idades os bebés ficam também fascinados com objetos que se movem e que dão vontade de tocar, segurar e manipular. De entre os possíveis exemplos salientam-se: os chocalhos, os peluches e os bonecos, os móbiles (excelentes para desenvolver a capacidade de atenção e a habilidade de seguir visualmente os objetos) e as bolas (com diferentes texturas).
 - a partir do primeiro ano é fundamental estimular a motricidade global, o equilíbrio e a linguagem. Os jogos de encaixe e de emparelhamento de formas e as histórias são duas das atividades adequadas a esta faixa etária. Pode ainda recorrer-se a brincadeiras em que a criança tenha que imitar ritmos e sequências de gestos simples. Os jogos que envolvam habilidades motoras, tais como empilhar objetos, encher carrinhos com blocos, saltar e equilibrar-se são muito importantes, principalmente a partir dos 2 anos. Durante este período começam também a apreciar livros com ilustrações de objetos familiares.
 - a partir dos 3 anos é fundamental estimular a motricidade fina e as pré-competências académicas, as brincadeiras de grupo e as pré-competências de leitura e de cálculo. Os vários jogos devem permitir começar a trabalhar a noção de número (o loto),  a memória (pares de imagens) e a motricidade (plasticina e legos).
 - a partir dos 5 anos é fundamental estimular a capacidade de leitura, a motricidade fina, e a lógica. Devem estimular-se as habilidades psicomotoras, incluindo a coordenação entre o olho e a mão e o desenvolvimento da habilidade dos dedos e das mãos, através de brinquedos de montar e desmontar mais complicados, blocos de tamanhos e formas diferentes e jogos e quebra-cabeças simples. Nesta faixa etária é frequente que muitas das brincadeiras das crianças espelhem o seu interesse por imitar o mundo dos adultos (as cozinhas, os médicos são algumas das atividades habituais deste período)

      No entanto é importante salientar que o mais importante não é a quantidade de brinquedos que cada criança tem mas o tempo que os pais passam a partilhar com ela as suas brincadeiras.


Artigo escrito para a revista Mãe Ideal (Abril 2013)


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Canções de Embalar

As canções de embalar, intimamente associadas aos primeiros anos de vida de um bebé, constituem um momento lúdico e único no estabelecimento dos seus vínculos afetivos e na transmissão da tradição familiar e cultural do meio em que este está inserido.

Cantar para um bebé é um momento mágico e ternurento, de partilha e troca de cumplicidade. É uma atividade privilegiada no processo de construção da relação de proximidade entre os pais e o seu bebé, transmitindo-lhe segurança e conforto enquanto é embalado e acarinhado. As canções de embalar assumem então um lugar de destaque e um marco no desenvolvimento de cada criança, não só pela expressão de afetos mas também porque permitem estimular vários domínios do desenvolvimento infantil de uma forma cativante e sob um sentimento de proteção.
A canção de embalar, cantada pelos pais (e/ou adultos mais próximos) proporciona sensações de conforto, proteção e estabilidade ao bebé.  A sua forte componente afetiva, que a distingue de outras canções infantis ou populares, influência o crescimento das crianças estimulando-as a um discurso musicalmente afetuoso.
As melodias cativantes que pautam as canções de embalar captam a atenção dos bebés ao mesmo tempo que estimulam o seu movimento e que promovem a sua intimidade com os seus pais. A linguagem musicada, presente nestas canções, estimula as primeiras vocalizações do bebé e permite que vá desenvolvendo capacidades como a afinação, a audição interior, o ritmo e a consciência fonológica.
As canções de embalar, nomeadamente as portuguesas, são associadas a um tempo e intensidade baixos e contínuos, com os ritmos simples e repetidos, levando a que as melodias de embalar privilegiem o imaginário de grande envolvência e segurança, mostrando-se essenciais para acalmar, aconchegar e embalar o sono dos bebés. Este género musical tem, como principal função, a tranquilidade e a indução de sono no bebé. O seu objetivo principal é criar um ambiente tranquilo e sossegado: o tom de voz, combinado com ritmo lento (que vai diminuindo à medida que o bebé se acalma), as estrofes repetitivas acompanhando o movimento de balanço, criam um ambiente monótono e compassado, que “evoca” o sono.
De acordo com algumas investigações, a música ocupa um lugar de destaque na estimulação do bebé já em meio intrauterino – o útero é a sua primeira sala de concertos.

Canções de embalar – um ponto-chave do desenvolvimento
Os primeiros anos de vida (entre o nascimento e os dezoito meses) são fundamentais no que toca à estimulação das potencialidades e do desenvolvimento do bebé uma vez que é neste período que se constrói a base das suas aprendizagens futuras. É durante os primeiros anos que o bebé é mais sensível à diversidade dos estímulos do seu entorno, particularmente aos sons - a música é um estímulo muito completo na ativação dos circuitos cerebrais.
A música representa uma das tarefas de estimulação mais completas, permitindo trabalhar o ritmo, a harmonia, a entoação das palavras (e a consciência fonológica), a articulação do discurso (sintaxe), a atribuição de significado e emoção às músicas (semântica) bem como a beleza e simplicidade da melodia. Desta forma, o bebé vai desenvolvendo a sua acuidade auditiva e linguística.
As músicas, particularmente as canções de embalar (devido à sua forte envolvência) permitem também que o bebé vá trabalhando a atenção e concentração, a imitação e reprodução de sons (memória) e a linguagem. Através da música é ainda possível que o bebé comece a desenvolver a sua capacidade de autoexpressão, o prazer criativo e o sentido estético. Esta é também responsável pelo desenvolvimento da coordenação motora e do equilíbrio físico do bebé, ao levá-lo a acompanhar a música com gestos e mais tarde com mimicas e danças.
No que diz respeito ao desenvolvimento afetivo, os estudos têm demonstrado que a música, pelo seu caráter relaxante, pode ajudar a acalmar os bebés. Durante o embalar, vão sendo criados laços emocionais e o bebé vai se sentindo seguro e aconchegado pelos seus pais. Estes momentos ajudam-no a desenvolver um sentimento de segurança e a construir a sua autoestima e permitem também estimular as interações pessoais entre pais e filhos.
A canção de embalar desempenha, por isso, um papel extremamente significativo na primeira infância na medida em que permite um melhor desenvolvimento cognitivo, afetivo e musical do indivíduo.


Canções de embalar – uma perspetiva cultural
A prática de embalar um bebé é uma tradição transversal a inúmeros povos e culturas (sendo visível também em algumas espécies de primatas) e remonta aos tempos da antiguidade grega, em que estas eram já uma prática frequente. As suas características específicas conferem-lhe um caracter intemporal – levando-as a ser transmitidas de geração em geração.
 Independentemente da sua cultura de origem, as canções de embalar, são facilmente identificáveis como pertencentes a este género musical uma vez que apresentam determinadas características que as tornam muito peculiares e a mesma função (tranquilizar, promover o sono e adormecer) nas diversas culturas do mundo.
Este tipo particular de canções infantis e tradicionais, para além da forte componente emocional, permite também que a criança vá interiorizando valores da sua cultura através da sua aprendizagem musical. Desta forma, as canções de embalar têm fortes intenções didáticas de inculturação, facilitando o processo de integração do bebé na sua sociedade, introduzindo elementos textuais referentes à vida na comunidade e recorrendo a uma harmonia de sons, imagens e cores para expressar estas noções.
As musicas de embalar incorporam mensagens de teor social, psicológico, moral e pedagógico e, durante as cantigas, os bebés são alertados para perigos, preocupações e por vezes também para medo infantis, num ambiente protegido - o colo dos seus pais.

As canções de embalar são importantes porque permitem: 
- desenvolver a relação emocional entre o bebé e os pais;
- partilhar afetos através do movimento e da expressão corporal;
- regular as emoções e os estados de espirito, tranquilizando pais e bebé;
- reduzir a ansiedade e aumentar o sentimento de segurança por parte do bebé;
- potenciar a comunicação e a interação do bebé;
- melhorar a autoestima;
- estimular a linguagem, a compreensão, a consciência fonológica;
- treinar a audição;
- transmitir normas e valores culturais.
Artigo escrito para a revista Mãe Ideal (Maio 2013)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Solidão Infantil

Tantos brinquedos e ninguém com quem brincar!...

Um dos maiores problemas sentidos atualmente pelas nossas crianças prende-se com a diminuição do tempo de brincadeira e dos momentos de convívio - as famílias são cada vez menores, as pessoas passam cada vez mais tempo no local de trabalho e o aumento da violência e da criminalidade fizeram diminuir o contacto e os jogos de rua com os vizinhos. Embora os brinquedos de que dispõem sejam mais diversificados e abundantes, as brincadeiras, essenciais para que as crianças se desenvolvam e construam as suas representações mentais sobre o mundo, são cada vez mais vividas de forma individual e solitária.
O ritmo de vida mais agitado a par com a crescente exigência profissional, que tanto caracterizam os meios urbanos, têm levado a maioria das famílias a conviverem muito menos com amigos e familiares. Apesar de estas alterações tenham conduzido a algumas melhorias significativas, os momentos de convívio e interação social (fundamentais para o bem-estar individual) têm vindo a ser descurados, facto que se reflete num aumento generalizado do sentimento de solidão por parte das crianças.
A solidão tem sido vista como uma experiência negativa, caracterizada por um sentimento de isolamento e ausência de interações sociais satisfatórias. Esta condição é fonte de perturbação emocional afetando o funcionamento psicossocial, a saúde e o bem-estar e provocando um sentimento de tristeza generalizada.
Quando sentido e vivido durante a infância, o sentimento de solidão irá repercutir-se ao longo da vida da criança, refletindo-se nas várias relações que irá experienciando. Frequentemente as crianças solitárias tendem a tornar-se adultos tímidos e ansiosos, demonstrando também algumas dificuldades em estabelecer relações empáticas com as pessoas com que se cruzam no seu dia-a-dia.
Um dos fatores que mais condiciona a perceção de solidão das crianças é a relação que estabeleceram com os seus pais – se sentem que têm suporte emocional, conforto e proximidade com os seus progenitores, é muito menos frequente viverem os momentos em que não estão acompanhados de forma angustiante. Por contraponto, quando as crianças sentem que a relação que têm com os seus pais é vivida com ansiedade ou ambivalência, é frequente demonstrarem mais sinais de angustia quando são deixadas sozinhas. Os pais dispõem de menos tempo efetivo para estar com os filhos, responder às suas questões, brincar com eles e mimá-los. Em muitos dos casos, segundo um estudo recente, a média de tempo despendida diariamente pelos nossos pais exclusivamente com os seus filhos é pouco mais de 30 minutos. Sendo estes a sua figura de referência, principalmente durante os primeiros anos de vida, esta ausência esta muito associada a níveis elevados de solidão e tristeza demonstrados por várias crianças e jovens.
A par com as alterações familiares, também a vida citadina modificou as brincadeiras das crianças e a sua relação com os seus amiguinhos. As pessoas passaram a morar em apartamentos ou em casas menores, os jardins diminuíram ou desapareceram e as ruas tornaram-se perigosas. Os jogos sociais ao ar livre tais como “as escondidas”, “a apanhada” e “a macaca”, responsáveis pela expressão coletiva do lúdico, foram perdendo o seu espaço provocando uma diminuição do contacto com o seu grupo de pares e um aumento do seu sentimento de solidão.
Com estas alterações. a televisão, a par com o computador e com os jogos virtuais, têm-se destacado como as atividades de tempos livros prediletas das crianças e jovens uma vez que para além de serem bastante cativantes estão disponíveis e podem ser jogados dentro das paredes de casa. No entanto, o tempo despendido com estes brinquedos interativos deve ser gerido e supervisionado pelos pais, para que não se tornem formas lúdicas de cultivar o isolamento, ao tornarem as crianças cativas dos écrans e dos jogos solitários.
A solidão, pode também estar na base do aparecimento de sintomas ou quadros depressivos, devendo os pais estar muito atentos a este tipo de sintomatologia dadas as suas consequências futuras. Quando tal acontece pode ser necessário recorrer a ajuda especializada.

O lado positivo da solidão
A solidão é descrita, habitualmente, como algo bastante angustiante e perturbador. Embora a socialização seja fundamental e preponderante para o crescimento saudável, é de referir que os momentos de solidão também têm um papel muito importante para o desenvolvimento e amadurecimento emocional das crianças, (desde que não sejam vividos por ela de forma extremamente ansiosa), uma vez que lhes permitem experienciar alguns períodos de individualidade, nos quais se vão tornando mais autónomos e independentes face aos pais.
Estes momentos permitem-lhe conhecer os seus limites, gerir o seu espaço individual, criar as suas brincadeiras e explorar o mundo de uma forma pessoal. Quando se sentem seguras na relação que têm com os seus pais é mais fácil para as crianças aproveitarem os momentos em que não estão acompanhadas para “mergulhar” nas suas brincadeiras, sem despoletar nelas um sentimento de abandono ou de rejeição.
É igualmente importante que os pais respeitem a sua necessidade de, por vezes, poderem estar a brincar sozinhas, sem que isso signifique que estão deprimidas ou infelizes. A partir dos 2 anos de idade, os momentos de solidão podem ser igualmente enriquecedores ao permitirem às crianças aprender a ter o seu próprio espaço.

Algumas estratégias para superar a solidão:
·      Dinamize momentos de interação social – um passeio no parque com outras crianças, uma ida ao cinema com amigos ou um lanche em casa para os coleguinhas da escola são ótimos momentos de convívio e de fortalecimento das relações interpessoais;
·      Fomente a participação em atividades de grupo e de equipa – o desporto, os escuteiros ou a música são alguns dos locais privilegiados para desenvolver o espirito de companheirismo e a amizade entre crianças e jovens;
·      Estimule as brincadeiras manipuláveis e os jogos de tabuleiros – estas atividades favorecem o diálogo e o conhecimento das regras de interação social;
·      Realize jogos de mimica e de expressão corporal com a criança – de uma forma lúdica e divertida a criança tem espaço para aprender a comunicar e a expressar-se corporalmente;
·      Valorize o tempo de qualidade – desligue os aparelhos de comunicação e tire algum tempo para estar em família, conviver, brincar e conversar. Estes momentos permitem estreitar os laços familiares e estimular a capacidade de comunicação e de interação entre os vários elementos da família, dando estratégias à criança para se relacionar com os demais elementos do seu contexto;
·      Fomente comportamentos afetivos nos mais diversos momentos, de forma simples e espontânea, através de gestos ou de palavras – aprender a expressar e a gerir os afetos é essencial para aprender a relacionar-se de forma mais ajustada;
·      Elogie os comportamentos positivos e pró sociais em detrimento dos desajustados, a valorização sincera é uma das melhores formas de estimular a autoestima e fomentar a autoconfiança, necessárias para o estabelecimento de relações intersociais ajustadas;
·      Esteja disponível para a criança, demonstrando-lhes que gosta de comunicar e partilhar os seus assuntos, sem assumir uma atitude crítica e destrutiva – crianças mais confiantes têm mais facilidade em relacionar-se com outras pessoas.


A reação dos adultos, em especial a dos pais, é muito importante para que cada criança aprenda a agir em sociedade visto que eles são, para elas, o modelo a seguir. Deste modo é fundamental que procurem dar exemplos construtivos de relações sociais ajustadas permitindo que a criança aprenda e interiorize as ferramentas mais adequadas para construir relações emocionais saudáveis com as pessoas com que se irá cruzar ao longo da sua vida.

Escrito para a revista Mãe Ideal (Fev. 2013)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Os pais também fazem testes!

A época de testes é, habitualmente, um momento de grande tensão no seio familiar: alteram-se as rotinas, os níveis de ansiedade sobem e as horas passadas em tornos dos manuais escolares aumentam significativamente.
Durante estes períodos, que ocorrem ciclicamente ao longo do ano letivo, cada aluno é sujeito a vários momentos de avaliação tendo que adaptar as suas rotinas e monitorizar o seu esforço e empenho em prol da obtenção de resultados satisfatórios. No entanto é de ressalvar que não é apenas o aluno que altera as suas rotinas nas fases de avaliação, todo o seu entorno é condicionado por este período e influência os resultados obtidos.
Os pais e encarregados de educação, enquanto exemplos e pontos de apoio, têm um papel preponderante nas várias valências da conduta dos filhos, nomeadamente no seu desempenho académico. Neste sentido, o suporte e monitorização do percurso escolar dos seus educandos é essencial: mais do que críticas, sugestões ou conselhos é fundamental que sejam transmitidos modelos assertivos e construtivos (por exemplo, mais do que incitar a um comportamento pouco ansioso nos períodos de avaliação é essencial transmitir-lhes uma postura calma e confiante).
Os modelos comportamentais construtivos devem ser complementados com um discurso otimista e de valorização pessoal, procurando transmitir mensagens de encorajamento (“se te esforçares vais ver que és capaz”) ao invés de mensagens de ameaça (“se não tiveres 80% vais ver o que te acontece”) ou de desânimo (“a continuar assim não vais conseguir de certeza”). Embora o sentido das frases possa ser idêntico, um discurso positivo incita o esforço e a dedicação pessoal e, consequentemente, a persecução de objetivos mais satisfatórios.
O desempenho escolar é ainda condicionado, entre outros fatores, pelo medo de falhar ou de não obter os resultados desejados. Deste modo, é fundamental que os pais alertem para a importância de preparar os momentos de avaliação atempadamente e fomentem um clima de calma e confiança especialmente durante estes períodos.

Ideias para ajudar o seu filho com nos momentos de avaliação…
1.   Acompanhe o dia-a-dia escolar do seu filho, estando a par das lições, dos trabalhos solicitados e dos conteúdos alvo da avaliação – é importante que os estudantes se sintam acompanhados sem se sentirem controlados;
2.   Converse com o seu filho sobre a forma como ele pretende fazer a preparação – mais do que lembrá-lo constantemente de que ele precisa de estudar ou eliminar estímulos distratores (proibir o uso do computador, telemóvel…) é importante consciencializa-lo sobre a importância da preparação antecipada e ajudá-lo a fazer um plano de estudo adequado;
3.   Evite alterações nas rotinas diárias nas alturas de testes – estas poderão funcionar um elemento perturbador e interferir negativamente no estudo;
4.   Na véspera dos testes ofereça, se possível, ajuda na revisão dos conteúdos - por um lado permite-lhe estar a par dos conteúdos alvo de avaliação e, por outro, pode ajudar a que se sinta mais seguro e confiante para realizar a avaliação;
5.   Reforce a importância dos momentos de avaliação enquanto forma de verificação das aprendizagens sem fomentar ansiedade;
6.   Em presença de sinais de ansiedade e mal-estar antes da prova converse com calma, procurando reforçar a sua auto confiança e explicando que embora seja normal algum nervoso, é preciso enfrentar a situação. É muito importante que não se evitem os momentos de avaliação – por muito que possa parecer uma solução a curto prazo, irá fazer aumentar os sinais de ansiedade a longo prazo;
7.   Quando a nota não corresponder às expetativas, é importante procurar conhecer a razão do resultado menos positivo antes de criticar – mais do que apontar o que não está bem é importante identificar o que falhou para que possa ser trabalhado e ultrapassado antes da próxima prova;
8.   Valorize os bons resultados e adote uma postura positiva para que seu filho realmente aprenda com os erros cometidos.http://educarparacrescer.abril.com.br/imagens/entrevistas/canto_4.gifhttp://educarparacrescer.abril.com.br/imagens/entrevistas/canto_2.gifhttp://educarparacrescer.abril.com.br/imagens/entrevistas/canto_3.gif


Uma boa preparação juntamente com uma atitude confiante e tranquila são bons preditores do sucesso escolar e pessoal.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Estudo Online e Aprendizagem

"O principal objetivo de recorrer a jogos e a plataformas de mundo virtual em contexto educativo é tornar a aprendizagem mais eficaz. Para tal há que envolver, motivar e despertar o interesse dos alunos e bem como tornando as aprendizagens claras e relevantes para contextos do mundo real. " (de Freitas; 2007)
O impacto das plataformas de estudo online na promoção das aprendizagens tem vindo a ser alvo de várias investigações científicas, nos últimos anos. Os resultados obtidos têm apontado para uma maior facilidade na aquisição dos conhecimentos quando as aulas são complementadas por atividades realizadas em ambientes virtuais, nomeadamente plataformas de estudo e-learning dado que estas aumentam a motivação e potenciam o desenvolvimento de competências específicas (de Freitas & Oliver, 2006).
A Akademia e o Instituto Superior Técnico, em parceria, desenvolveram um estudo científico com o intuito de verificar o impacto de diferentes plataformas de ensino, na aquisição de conhecimentos e na motivação demonstrada pelos alunos face aos contextos de aprendizagem.
O estudo decorreu ao longo de duas semanas e contemplou 91 dos nossos alunos (selecionados com base na sua disponibilidade) desde o 5º ao 10º ano. Ao longo dos vários dias os alunos assistiram a três aulas (português, matemática e ciências da natureza/biologia) em três contextos de aprendizagem diferentes (aulas presenciais, aulas numa plataforma online e aulas em realidade virtual).
Para além dos testes de conhecimento, feitos com o intuito de verificar a assimilação dos conteúdos lecionados nas aulas, foram também feitos testes de opinião de modo a identificar qual das plataformas ia mais de encontro às preferências dos alunos.
De acordo com os resultados obtidos, não foram verificadas diferenças estatisticamente significativas ao nível das aprendizagens.
No pós teste, feito imediatamente após a aula, embora a diferença não tenha sido significativa, há que referir que os alunos que frequentaram a classe presencial obtiveram pontuações ligeiramente superiores.
Os resultados obtidos no reteste, realizado uma semana após cada uma das aulas, evidenciaram uma prestação muito mais homogénea, independentemente da plataforma utilizada. Tal facto indica que, ao nível da retenção do conhecimento, as várias plataformas promovem aprendizagens duradouras e estáveis no tempo.
Relativamente ao questionário de interesses, os alunos referiram estar mais envolvidos na aula do mundo virtual, tendo sido esta, na sua perceção, a aula mais divertida e que gostariam de frequentar novamente.
Os dados recolhidos nesta investigação demonstram-nos que o recurso a mundos virtuais pode ser benéfico para melhorar o processo de aprendizagem, potenciando o empenho e a motivação dos alunos face às tarefas em realização.

A presente investigação serviu ainda para a escrita de um capitulo do livro Cases on Digital Game-Based Learning, do qual sou co-autora: Challenges of Introduction Serious Games and Virtual Worlds in Educational Curriculum.

Artigo escrito para o site da Akademia (adaptado)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Bom dia escola - o (re)começar de um ano lectivo

Quando se aproxima o (re)começar do ano lectivo não é possível deixar de pensar numa série de rituais que lhe são inerentes: há que comprar e encapar cadernos e livros, escolher a mochila e o estojo, organizar canetas, lápis e marcadores… recordam-se antigos colegas e professores e tecem-se considerações sobre o ano que se avizinha.
O dia-a-dia é organizado, (re)criam-se rotinas e estipulam-se horários. A cada ano lectivo que começa, a cada ano de escolaridade transitado, a complexidade e a exigência das matérias a estudar intensificam-se, despoletando um aumento das expectativas em relação ao desempenho dos alunos (Wenz-Gross & cols., 1997) e um crescimento e amadurecimento dos mesmos.
No entanto, o ingresso na vida escolar e as várias mudanças de escola desencadeiam também pequenas situações geradoras de ansiedade, não só nos alunos como também nos seus encarregados de educação, que se reflectem nas dificuldades de integração demonstradas por alguns dos estudantes em transição.
Imaginemos uma criança de 3 anos no seu primeiro dia na pré-escola, que chora compulsivamente com medo que os pais não voltem?
E como reagem os pais ao verem a filha de 9 anos chorar, porque se não ter sido escolhida para brincar no recreio?
Pensemos no rapaz de 10 anos que, com a mudança de ciclo (transição do 4º para o 5º ano), passa de finalista da escola primária a caloiro de uma nova escola e tem que se adaptar às inúmeras disciplinas, leccionadas por vários professores.
Consideremos também a rapariga de 13 anos que sofre o seu primeiro desgosto de amor.
E como regem os pais ao facto do filho querer seguir artes, para vir a ser arquitecto, em vez de seguir economia e poder continuar o negócio da família, tal como o pai tinha planeado?
Estes e outros momentos menos positivos do processo de transição podem ser minimizados, não só no que se refere às dificuldades relacionadas com as aprendizagens escolares como também no que diz respeito a algumas situações-problema decorrentes das interacções pessoais, se promovermos o desenvolvimento de competências pessoais e relacionais e processarmos a mudança de forma faseada e dialogada.
Paralelamente, é também importante fomentar expectativas ajustadas e realistas e valorizar o esforço e o empenho dos filhos, pais e professores na persecução das metas propostas.

Algumas das estratégias que poderão facilitar a transição/recomeço são:
* proporcionar o conhecimento prévio da escola (instalações, serviços e respectivos profissionais, alguns professores, elementos do conselho executivo, auxiliares de acção educativa e alguns alunos);
* analisar a importância do momento de transição e das várias mudanças que esta despoleta;
* organizar o ambiente educativo: motivador e facilitador das experiências que permitem a aprendizagem;
* motivar o aluno para a escola e para as aprendizagens escolares, procurando desenvolver o gosto pela aprendizagem e pela aquisição de conhecimentos;
* dialogar sobre a mudança e as suas implicações;
* reforçar positivamente os comportamentos ajustados;

Que este seja um ano repleto de esforço, empenho e vontade de trabalhar,

Artigo escrito para o site da Akademia (Setembro 2011, adaptado)

Wenz-Gross, M., Siperstein, G. N. Untch, A. S., & Widaman, K. F. (1997). Stress, social support, and adjustment of adolescents in middle school. Journal of Early Adolescence, 17(2), 129-151.