sábado, 2 de março de 2013

Instinto Maternal



Ter instinto maternal não significa ser uma mãe perfeita e fazer tudo bem à primeira. É um impulso sentido pela maioria das mulheres que as leva a responder às necessidades do filho que acabou de nascer, segundo vários graus de intensidade e dependendo das características de ambos.

Ser mãe é, para muitas mulheres, o grande sonho/objetivo das suas vidas que começa desde tenra idade e se espelha na forma como, ainda meninas, cuidam e mimam as suas bonecas, as embalam para as “adormecer”, as alimentam com comida faz de conta e as vestem com roupas bonitas aconchegantes. Existem meninas tão apegadas às suas bonecas que só a ideia de se apartarem delas, mesmo que por breves instantes, é deveras perturbador.
Embora ser mãe não seja o mesmo que brincar às bonecas, muitos dos impulsos de cuidar representados pelas meninas nas suas brincadeiras refletem os comportamentos base da maternidade. Cuidar, alimentar, proteger e ajudar a crescer e a tornar-se autónomo são algumas das tarefas que é esperado que a mãe desempenhe junto do seu bebé para que este se vá desenvolvendo de forma saudável, equilibrada e feliz.
Ao contrário de tantas outras tarefas que se podem aprender na escola, não há aulas que ensinem uma mulher a ser mãe (embora já existam aulas que ajudam os futuros pais a lidar com alguns momentos da maternidade) nem tão pouco é algo que se aprenda lendo livros ou vendo documentários - é algo que se compreende e se melhora com a experiência da maternidade em si mesma. Algumas mulheres demonstram uma vocação inata para serem mães, que  parece que foram talhadas para serem mães, e outras adquirem-na com a prática e com o treino.
A propensão que algumas mulheres demonstram para cuidar e proteger os seus filhos é muitas vezes chamada de instinto maternal e envolve o conjunto de ações que as leva a responder às necessidades do bebé de uma forma inata/ instintiva. Este é considerado latente nas mulheres desde tenra idade e é a ele que se deve a disponibilidade para prestar atenção aos seus filhos, garantindo as necessidades básicas ao seu desenvolvimento e, consequentemente à subsistência da sua espécie.
O instinto maternal está presente nas várias espécies e prende-se com o impulso que leva as mães/progenitoras a assegurar as necessidades básicas dos seus recém-nascidos de modo a assegurar a continuação da espécie. Ao seu encargo fica a alimentação, o aconchego e a proteção dos seus bebés de modo a que estes possam crescer e tornarem-se independentes do seu cuidado. Nos seres humanos, contudo, o instinto maternal não se extingue no momento em que a mãe deixa de amamentar, ele estende se ao longo da vida e acarreta questões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, talvez porque de entre os vários recém-nascidos o bebé humano é o mais dependente dos cuidados e atenções da sua mãe ou talvez devido ao impacto da na nossa cultura e dos valores sociais na construção da ideia de instinto maternal.
Tendo também base cultural, o instinto maternal tem vindo ajustar-se às mudanças na sociedade, nomeadamente no que se refere ao papel das mulheres como mulheres, trabalhadoras e mães. A integração das mulheres no mundo profissional e a frequente aposta no crescimento e consolidação de uma carreira, tornou usual o adiar do relógio biológico no que toca à maternidade uma vez que existe uma coincidência entre os melhores anos na vida da mulher para ser mãe e para a construção e consolidação de uma carreira. Paralelamente a mulher deixou de ser vista só como mãe e cuidadora e muitas optam hoje por não considerar a maternidade como um objetivo de vida independentemente de sentirem ou não instinto para tal e também esta opção deve ser respeitada.    
No entanto o instinto maternal não está só diretamente relacionada com o facto de ter sido mãe. Muitas mulheres sentem este impulso junto de crianças mesmo antes de gerarem o seu primeiro filho. Tal facto explica a razão da existência de instinto maternal nas mães adotivas – embora não tenham concebido a criança desenvolvem o impulso de cuidar e proteger o filho que acolhem por sua vontade.

Instinto Maternal vs Amor Maternal
 Embora usados para se referir à mesma situação, o instinto maternal é diferente do amor maternal uma vez que o primeiro diz respeito à capacidade de assegurar a sobrevivência física do recém-nascido, o segundo é uma construção afetiva continua e continuada entre a mãe e o seu bebé. O “amor maternal” pode ser definido como o conjunto de sentimentos e afectos entre a mãe e o filho que traduz uma relação de carinho e ternura, enquanto o “instinto maternal” pode existir na mulher em presença de uma criança, independentemente de ser ou não mãe.
Ideialmente, no momento em que a criança nasce, o amor e o instinto maternal estão em sintonia na mãe e, enquanto o instinto se vai tornando mais ténue ao longo dos anos, o amor, por contraposto, vai aumentando e perdura para toda a vida. Existem no entanto alguns casos em que tal não se verifica e a mãe é uma excelente cuidadora mas tem dificuldade em gerir e demonstrar o seu afeto para como o seu filho ou pelo contrário, que tem “um amor do tamanho do mundo” mas evidencia menos facilidade em cuidar do seu bebé.
No caso de um dos dois não estar desenvolvido é importante que a mãe se treine quer para desempenhar as tarefas do cuidar (alimentar, dar banho, mudar a fralda) quer em estabelecer com o seu bebé uma relação de afeto (valorizando os momentos de toque, o olhar e a conversa com este).

Os homens também têm instinto maternal?
Pensar em instinto maternal leva-nos a considerar a maternidade biológica como a base e, por isso mesmo, algo que consideramos exclusivo das mulheres. No entanto os homens também podem ter gestos de ternura e de cuidado, que muitas vezes reprimem por socialmente se considerarem atitudes pouco masculinas.
Quando o pai assume um papel activo como cuidados poderá fazê-lo tão bem como a mãe, facto que tem levado a que alguns pais fiquem com a custódia dos filhos aquando das separações.  Quando um homem e uma mulher se tornam pais, ambos são igualmente responsáveis pelos cuidados dos seus filhos.


Mitos sobre o instinto Maternal
De entre os vários mitos sobre instinto maternal, a forma de brincar das meninas pequenas é frequentemente associado ao seu futuro comportamente como mãe. Há quem diga que a forma como cuidam das bonecas é um otimo indicador de instinto maternal, em contraponto com gostarem de “brincadeiras de rapaz”, que é sinal que virão a ser más cuidadoras. No entanto não há qualquer relação entre os dois acontecimentos - há meninas que nunca brincaram com bonecas e se revelam mães fantásticas e há meninas que brincaram imenso às casinhas e o seu instinto maternal não é tão notório ou decidem não ter filhos.
Um outro mito diz respeito à relação que cada mulher estabeleceu com a sua mãe durante criança e como isso a influenciará como mãe. Embora seja aceite que estabelecemos os nossos padrões comportamentais precocemente, mulheres que vivenciaram situações menos construtivas podem tornar-se excelentes cuidadoras, procurando não transmitir aos filhos as lacunas que sentiram enquanto crianças. Outras, vez sua vez, foram crianças muito amadas e acarinhadas mas revelam-se adultas frias e distantes.
O terceiro mito refere-se ao facto do instinto maternal, enquanto impulso para cuidar de crianças pequenas e forma de expressar o desejo de conservar e promover a vida,  é algo exclusivo das mulheres. Se por um lado as mulheres têm o privilégio de gerar e dar à luz, o impulso base do instinto maternal pode ser visível em alguns pais/homens.


Importa ressaltar que ninguém “nasce ensinado” e, deste modo, embora para muitos o instinto maternal seja um impulso inato, pode ser melhorado e aperfeiçoado com o treino e com a prática – não se nasce pronta para ser mãe, mas todas as mulheres se podem preparar para o serem!
Artigo publicado na revista Mãe Ideial (Jan 2013)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A pessoa por detrás da máscara



O Carnaval é a altura do ano em que muito de nós despem as roupas quotidianas para, entre sonhos e fantasias, recriarem personagens.
Durante as semanas carnavalescas é-nos permitido representar um papel, vestindo-nos e agindo segundo os padrões criados por nós de modo a tornar reais os disfarces que escolhemos. E, “por ser Carnaval, ninguém leva a mal” essa representação.
No entanto, passada a época carnavalesca, muitas são as máscaras que continuam postas, não com o intuito de imitar uma personagem, mas de recriar uma forma de ser/agir que se adeque aos vários contextos em que cada um está inserido. Este facto é-nos culturalmente incitado pela nossa sociedade, por exemplo, através das campanhas de marketing e publicidade, que nos transmitem a necessidade do parecer com intuito de a aumentar vendas e lucros e o seu impacto no mercado.
E é em contexto social que surge a necessidade de nos representarmos a nós mesmos, procurando suplantar todas as obrigações quotidianas, transmitindo um semblante que muitas vezes não transmite o real valor de cada um.
Embora seja necessário que nos ambientemos e adaptemos aos contextos nos quais estamos inseridos, é fundamental que saibamos agir nos mesmos de acordo com as nossas crenças e valores e não apenas tendo em conta as expectativas sociais depositadas em nós.
É necessário que saibamos agir de forma adequada mas genuína, procurando ir para além da representação de papéis e sendo autênticos. Tal como foi referido por Goleman (1995), ao agirmos de forma mais autêntica podemos vivenciar os acontecimentos de uma forma mais dolorosa, no entanto, iremos certamente constatar que a vida será vivida com mais intensidade e significado dado que “os nossos sentimentos mais profundos, as nossas paixões e desejos, são guias essenciais do nosso funcionamento”.
Embora a autenticidade seja por vezes confundida com a necessidade de ser diferente, este conceito é muito mais lato. Ser autêntico significa ter personalidade, ser verdadeiro e ser único, agindo de acordo com as suas crenças e conceções através de uma forma própria de agir, falar, andar, pensar, comportar-se e sentir.
A busca pela autenticidade promove igualmente o desenvolvimento das capacidades sócio-emocionais, cuja consequência é o aumento da motivação e a melhoria do desempenho escolar/profissional dos vários sujeitos.
Neste sentido, é importante cultivarmos a nosso ser autêntico, deixando as máscaras pessoais apenas para alturas Carnavalescas.

Algumas ideias cultivar a autenticidade:
·  Aprender a valorizar as coisas simples, tais como os pormenores da nossa forma de ser e agir;
·  Não bloquear os sonhos e ambições, procurando enquadrá-los no nosso dia-a-dia;
·  Fomentar comportamentos afetivos nos mais diversos momentos, de forma simples e espontânea, através de gestos ou de palavras;
·  Valorizar o elogio sincero e a crítica construtiva;
·  Não ter medo de expressar emoções, sejam elas de alegria e contentamento ou de tristeza e desilusão.

Votos de um bom Carnaval.
Artigo escrito para o site Akademia (Fev 2011, adapt.)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Parto: E se o pai não quiser assistir?



A gravidez, o parto e a educação dos filhos foram, durante muito tempo, tarefas destinadas unicamente às mulheres, das quais os homens eram socialmente excluídos e apartados. No entanto, ao longo dos últimos anos, o papel do pai tem vindo a ganhar importância, sendo atualmente visto como uma peça fundamental para o desenvolvimento equilibrado e harmonioso dos seus filhos.
E a tarefa de ser pai não começa apenas após o nascimento. Desde que o casal descobre que engravidou que o pai deve assumir um papel presente, ativo e construtivo, não só procurando estabelecer a relação com o bebé ainda in útero: mexendo na barriga da mamã e falando com a criança, por exemplo; como também apoiando a companheira e partilhando com esta os vários momentos da gravidez: desde a primeira ecografia, até ao nascimento do tão esperado bebé.
Este envolvimento é particularmente importante se tivermos em consideração que um pai que participa ativamente, juntamente com a companheira, na gestação do filho faz com que o casal esteja mais motivado para desenvolver competências cognitivas e relacionais em família, tendo por isso maior probabilidade de vivenciar as várias etapas desta experiência de forma positiva.
De entre as várias etapas da gravidez, uma das mais cruciais e aguardadas é o momento do parto: finalmente os pais vão poder agarrar o seu bebé, embalá-lo e olhar para ele. É um dos momentos mais intensos da vida do casal em que este se confronta pela primeira vez com as expetativas que foi criando ao longo de 9 meses sobre o seu bebé e as características que ele realmente tem após os vários meses de gestação. O parto é então o início de uma longa caminhada para o bebé e para os pais, fora do conforto do colo materno.
O papel do pai durante o parto também tem vindo a sofrer alterações ao longo dos últimos anos especialmente na nossa cultura. Se durante muitos anos o parto era um momento exclusivamente feminino em que o pai ficava confinado aos corredores do hospital a aguardar ansiosamente o primeiro choro do filho, nos nossos dias a maioria dos pais opta por ultrapassar a barreira da sala de partos e presenciar o nascimento do seu bebé.
E se é inegável a importância da mãe ser acompanhada por uma pessoa significativa ao longo do parto, que lhe proporcione apoio emocional e que permita que esta se sinta acompanhada, nem todos os homens se sentem preparados para desempenhar este papel junto da companheira.
O papel do pai como acompanhante e fonte de apoio é relativamente recente na nossa sociedade,  A sua presença, aquando do momento do nascimento do bebé, tem sofrido inúmeras controvérsias e muitos ainda se estão devidamente preparados e motivados para assistir ao momento do nascimento e fazer face às expectativas das companheiras. Sem dúvida que as aulas de preparação para o parto são um contributo indispensável, uma vez que ensinam estratégias que funcionam como facilitadores da preparação dos homens para apoiar a companheira no trabalho de parto e permitem ao casal esclarecer um sem número de questões em torno desta (e de outras) matéria.
Embora a maioria das maternidades e hospitais apoie e incentive a presença do pai na sala de partos, nem todos os casais optam pela sua presença no momento do nascimento, sendo fundamental que o casal converse abertamente sobre as suas dúvidas e receios e que veja até que ponto a presença do pai é um desejo de ambos. E é essencial respeitar o desejo de ambos!
O desentendimento no que toca a esta matéria não deve desapontar nenhum dos dois – o nascimento de um filho deve unir o casal e não apartá-lo ou ser motivo de discussões.
No caso de a companheira optar por estar sozinha (por, por exemplo, achar que o pai só iria atrapalhar) ou ter por companhia alguém que já passou por essa experiência (como a sua mãe ou uma grande amiga), o pai deve esforçar-se por perceber e procurar envolver-se nas demais situações de preparação do parto.
Caso o pai não deseje assistir, é muito importante que a mãe respeite essa posição. Para alguns homens é extremamente penoso, podendo chegar a ser traumático, assistir a um momento em que quer a companheira está sujeita a um elevado sofrimento, e toda a beleza do significado do nascimento é suplantada pelas imagens de angústia e ansiedade do parto em si.
O trabalho de parto nas suas várias etapas (o rebentar das aguas, as contrações, a respiração, o nascimento do bebé, o cortar do cordão umbilical, entre outras), são momentos em que a maioria dos homens se sente pronto à-vontade, podendo também experienciar sensações de desconforto, frustração e impotência diante das condicionantes e da dor da companheira.
Os relatos de experiencias menos bem-sucedidas, bem como as cenas das telenovelas e dos filmes que retratam a parte dolorosa e penosa dos partos são muitas vezes dois dos fatores que aumentam o receio do pai em estar presente. E se por um lado é importante falar abertamente das situações que mais o poderão perturbar nessa altura no sentido de diminuir os seus possíveis “fantasmas” também é fundamental respeitar a sua decisão a bem de não criar maior tensão entre o casal. É ainda importante referir que o facto de o pai não estar presente não vai condicionar o seu desempenho futuro como pai.
A presença do pai na sala de partos deve ser uma mais-valia e não um obstáculo que dificulte o momento. Lembrem-se que a chave do entendimento é o diálogo e que o nascimento de uma criança não deve ser fator de discórdia mas de união.

Se o pai já decidiu que não quer estar presente deve:
- falar do assunto o quanto antes, adiar só vai criar falsas expetativas e dificultar ainda mais a conversa;
- ser sincero quanto aos seus motivos sem medo de expor as suas fraquezas, medos e inseguranças face ao momento do parto;
- não usar falsos argumentos que podem facilmente ser percebidos e só vão criar desarmonia entre o casal;
- apoiar e estar presente nas demais situações, partilhando os momentos que antecedem e precedem o nascimento;
- encorajar a sua companheira a encontrar estratégias para que lide com a situação sem a sua presença;
- encontrar outra pessoa do círculo próximo de confiança que presencie o parto, se assim decidirem.

Mãe, é importante que:
- aceite as razões do seu companheiro, procurando respeitar os seus argumentos;
- valorize os seus medos e receios tentando encontrar resposta para os mesmos;
- procure uma pessoa da sua confiança e estima que a possa acompanhar ao longo do parto, se achar preferível;
- envolva o seu companheiro nos demais momentos da gravidez – é fundamental que o pai esteja presente e a acompanhe a si e ao bebé.

O nascimento de uma criança é muito mais do que as horas na sala de parto, é uma tarefa que começa com o planeamento da gravidez e que se estende para toda a vida.
Mesmo decidindo não assistir ao parto é fundamental ser ativo no papel de pai, estando presente nas ecografias, nas aulas de preparação e nas consultas de obstetrícia e estando envolvido nas decisões que possam aparecer ao longo da gravidez.
Um pai presente tem ainda a oportunidade manifestar as suas dúvidas e receios e encontrar respostas para as mesmas de modo a sentir-se mais seguro e confiante no seu novo papel.
Artigo publicado na revista Mãe Ideal (Nov 2012)