terça-feira, 16 de julho de 2013

Mitos e verdades sobre o cérebro

O cérebro humano vai estabelecendo ligações neuronais ao longo de toda a vida, podendo estas ser potenciadas através de atividades de exercitação e de estimulação cognitiva.

Ao longo dos últimos vinte anos, a pesquisa sobre o cérebro e sobre o seu funcionamento têm sofrido um avanço significativo. Autores como Byrnes e Fox (1998) destacam o impacto que estes avanços têm despoletado no quotidiano, nomeadamente no que toca à estruturação das aprendizagens e à compreensão da dinâmica dos processos de pensamento.
Com o aumento dos conhecimentos neste domínio, o cérebro tem-se tornado tema recorrente em conversas, notícias de revistas e artigos online, permitindo a cada sujeito criar ideias e tecer opiniões relativamente a esta questão. Muito deste conhecimento não é devidamente aprofundado dando lugar a “conceções errôneas” sobre o funcionamento do cérebro que, segundo a OCDE (2003) são classificadas como “neuromitos”. Um “neuromito” pode definido como uma ideia ou opinião que não é fundamentada pelo conhecimento neurocientífico sendo, por isso mesmo, errada (Abimbola & Baba, 1996).
De entre os vários “neuromitos” existentes, há três que se destacam: a existência de períodos críticos, a conceção hemisfério esquerdo vs hemisfério direito e a utilização limitada do cérebro.
O conceito de períodos crítico tem por base a ideia de que a plasticidade cerebral, isto é, o desenvolvimento e a aquisição de competências específicas (como a linguagem e o raciocínio) está limitada aos primeiros anos de idade sendo impossível, adquirir essas competências posteriormente. Contudo, pesquisas contemporâneas defendem a possibilidade dos estímulos ambientais despoletarem novas ligações entre os neurônios e, consequentemente, evidenciam que a plasticidade não é limitada aos primeiros três anos mas que ocorre ao longo de toda a vida, alterando a conceção de “período crítico” para “período sensível” (período em que é mais fácil conquistar certas aprendizagens, sendo possível que essas capacidades sejam desenvolvidas posteriormente).
A ideia de separação funcional do cérebro em hemisfério esquerdo e hemisfério direito, atribuindo a cada um deles um modo de funcionamento próprio com funções específicas separadas tem também sido contraposta. Estudos recentes têm demonstrando que a cognição humana é demasiado complexa para ser controlada por um único hemisfério e que existem redes neuronais em constante comunicação em ambos os hemisférios.
O terceiro “neuromito” prende-se com a limitação do funcionamento da atividade cerebral a 10% do cérebro sem que haja, no entanto, evidências científicas que confirmem este fato – de acordo com os conhecimentos disponíveis, o nosso cérebro funciona a 100%, sendo pouco provável que a evolução permitisse o desperdício de recursos necessários para estruturar um órgão tão ineficiente e apenas parcialmente usado (Beyerstein, 2004).
É ainda de referir, como outro possível “neuromito”, que as lesões cerebrais não são permanentes, isto é, após a existência de um dano cerebral é possível haver recuperação das vias nervosas afetadas, dependendo do local em que ocorre e da severidade da lesão. A explicação deste fato prende-se com a capacidade que o cérebro tem em desenvolver novas conexões, direcionando as funções afetadas para outras áreas saudáveis.
Sintetizando, é de salientar que o treino e a estimulação cognitiva potenciam a plasticidade cerebral, aumentando o êxito dos sujeitos nas várias tarefas e melhorando a eficácia do funcionamento cognitivo (Cartwright, 2001).
- Realize diariamente exercícios divertidos que estimulem as competências cognitivas;
- Faça pequenas pausas para relaxar (10 a 15 minutos) entre as atividades que exigem alto nível de concentração;
- Fomente a leitura diária começando com pequenos textos, que deverão, progressivamente, aumentar em tamanho e em grau de complexidade;
- Incentive a aprendizagem de um instrumento musical ou a realização de atividades desportivas;
- Estimule a realização de atividades de uma forma inovadora e diferente – novos desafios são envolventes

Outras leituras  de referência
Abimbola, I. O., Baba, S. (1996). Misconceptions & alternative conceptions: the role of teachers as filters. The American Biology Teacher, 58(1): 14-19
Cartwright, J. H. (2001). The evolution of brain size. Em, J. H. Cartwright, Evolutionary Explanations of Human Behaviour, pp.119-132. Hove, UK: Routledge.
Beyerstein, B.L (2004). Do we really use only 10% o four brains? Scientific American, 86.
OCDE (2003) Compreendendo o cérebro: rumo a uma nova ciência da aprendizagem. São Paulo, SP:Editora Senac

Artigo escrito para o site Akademia (Janeiro 2012, adapt.)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

As primeiras letras

Será que as devemos ensinar em casa ou esperar pela integração das crianças em ambiente escolar?
Hoje em dia, as crianças desenvolvem-se numa sociedade letrada, com meios tecnológicos muito atrativos, que despertam a sua curiosidade e a sua vontade de decifrar letras, desde tenra idade.

As crianças estão em constante crescimento, interagindo com o mundo que as rodeia em busca de novas aprendizagens, desafiadas pela sua curiosidade e pela ânsia de conhecer o contexto do qual fazem parte.
Desde muito novas que o mundo que as circunda está repleto de letras, palavras e frases, fazendo com que convivam com a literacia continuamente, desde o seu nascimento. Paralelamente, a sociedade tecnológica e os brinquedos lúdico-didáticos cada vez mais informatizados, facilitam e incentivam a alfabetização fora da escola, nomeadamente apresentando letras e palavras no decorrer das instruções de funcionamento/de jogo e das atividades a desempenhar. A par com a sua assiduidade e relevância no dia-a-dia, a aquisição do domínio sobre estas duas competências é fundamental dado que se tratam de ferramentas imprescindíveis para que as crianças ampliem as suas possibilidades de entender a realidade e para que conheçam os seus contextos, já que a maioria da informação com que irão contactar lhes será apresentada por escrito.
As crianças vão aprendendo letras e palavras antes mesmo da sua entrada no primeiro ciclo, sendo comum começar a distinguir marcas e a ler pequenas palavras com que se relacionam mais frequentemente. Esta proximidade tem levado as escolas a refletir sobre a idade ideal para a introdução da alfabetização e sobre o tipo de atividades de pré-leitura e pré-escrita que deverão ser desenvolvidas para estimularem e motivarem a aprendizagem destes domínios. Durante este período, mais do que refletir sobre a idade ideal para dar início ao seu processo de alfabetização, é fundamental analisar e cultivar a motivação em interagir com as letras e palavras e procurando decifrá-las sem obrigar as crianças a aprender. Desta forma, é tão contraproducente forçar crianças até aos cinco a ler e escrever como impedir as que estão motivadas de explorar as bases da leitura com receio de que se possa vir a desmotivar mais tardiamente - mais importante do que a idade é a vontade de cada criança de se alfabetizar.
A alfabetização exige um determinado estádio de maturação neuropsicológica e não convém força-las a adquirir uma habilidade para a qual não estão ainda preparadas. Nestes casos o mais adequado será estimulá-las recorrendo a atividades lúdico-didáticas, que as envolvam e as motivem para a aprendizagem destas competências. A leitura e a escrita requerem a maturação de estruturas cerebrais distintas, que implicam ver os símbolos, interpretar as letras, ouvir o seu som correspondente, decifrar o seu significado e organizar a forma como são pronunciadas e que têm de funcionar de forma coordenada. É em idades mais precoces, dada a plasticidade cerebral e o potencial de aprendizagem de cada criança, que se deve dar início ao processo de alfabetização, estimulando de forma lúdica e divertida as competência de pré-leitura e pré-escrita, recorrendo a atividades cuidadosamente pensadas e adequadas, que fomentem o desenvolvimento do vocabulário, da consciência fonológica e do conhecimento das letras.
A leitura é também uma das ferramentas que mais condiciona o seu sucesso uma vez que é a competência base para todos os seus anos escolares – é ao longo dos primeiros anos, a partir das experiências que vivenciam, que as crianças desenvolvem e estruturam as capacidades que usarão como base das suas aprendizagens futuras, nomeadamente no que toca à construção de um percurso escolar de sucesso. Aprender a ler permite à criança aprender a decifrar todos os carateres que vêm impressos nos manuais académicos e, consequentemente, conhecer o mundo e formar-se profissionalmente. Um estudo internacional sobre literacia em crianças e jovens, levado a cabo pela OCDE, evidenciou que Portugal se encontra abaixo das médias europeias dos países desenvolvidos, estando latente no estudo que os conhecimentos e competências neste domínio aquando da entrada para a escolaridade básica são, em muitos dos casos, insuficientes. Segundo o mesmo estudo, estes resultados culminam em elevadas taxas de insucesso e de abandono escolar que poderiam ser minimizados com o desenvolvimento de programas de literacia no jardim-de-infância (mais do que ensinar a ler é fundamental ensinar a gostar de ler). De acordo com o mesmo estudo, as crianças que possuem mais conhecimentos sobre as regras do texto escrito tendem a obter melhores resultados a nível do vocabulário, da consciência fonológica e da identificação de letras, sendo possível estabelecer uma associação positiva entre a qualidade da estimulação pré-escolar e o desenvolvimento de algumas competências de literacia.
Independentemente dos métodos usados na escola, a atuação dos pais é decisiva para as crianças - pais que apreciam ler e escrever e incentivam os seus filhos a gostar estão a contribuir para que estes se tornem leitores de sucesso.
A aprendizagem precoce das primeiras letras tem suscitado alguns mitos relacionados com o tema. O mais frequente prende-se com a possibilidade da criança vir a desmotivar-se no primeiro ano, por já saber ler. Embora isto possa acontecer uma vez que a criança já domina alguns dos conteúdos que estão a ser explorados, é mais desmotivante não conseguir acompanhar as novas aprendizagens e não experimentar a sensação de sucesso (fundamental para a construção da sua autoestima e autoconceito). Cabe ao professor gerir as aprendizagens de cada aluno em ambiente de sala (esta criança pode ficar como tutora de um colega com mais dificuldades, por exemplo) e aos pais continuarem a estimular e a desafiar a criança nesta área específica (através de atividades para realizarem fora do ambiente escolar). Um outro mito prende-se com a possibilidade da criança vir a desenvolver problemas de leitura, no entanto a probabilidade de isto poder vir a acontecer é muito maior em alunos que não tenham adquirido as competências de pré-leitura ao longo dos anos que antecedem a sua entrada no primeiro ciclo.

Estratégias para estimular a aprendizagem da leitura
 - Fomentar o gosto pela leitura, lendo histórias com a criança, em situações diversificadas e usando diferentes materiais (livros de histórias, jornais, revistas, embalagens, textos da internet, bandas desenhadas, sequências de imagens);
- Criar a hora da leitura em família, em que cada um dos elementos dedica algum tempo a ler (seja um livro, uma revista ou o jornal) - a aprendizagem pelo exemplo é a mais significativa;
- Demonstrar a importância das palavras no dia-a-dia, dirigindo a atenção da criança para a observação de situações de escrita no mundo real;
- Estimular a criação de histórias a partir de imagens ou de frases que lhe são ditas;
- Potenciar a consciência fonológica através de jogos de palavras, nomeadamente, pedindo à criança que descubra palavras que comecem ou terminem com o mesmo som, que reproduza lenga-lengas e rimas ou que complete poemas.

A alfabetização é um processo que se inicia desde tenra idade e que se encontra em constante desenvolvimento e construção. É fundamental estimular a criança a contactar com letras e palavras e promover a leitura e a escrita de forma a potenciar o seu gosto pela temática e desenvolver a sua motivação para novas aprendizagens. Por contraponto, se a criança for forçada a aprender, tal facto poderá desmotivá-la e despoletar uma barreira face à escola.
Para ser um leitor bem-sucedido é importante que a criança domine varias convenções, nomeadamente dos conceitos sobre escrita, da consciência fonológica e da identificação de letras, cujo conhecimento parece ser produto de múltiplas experiencias de literacia.
 Artigo publicado na revista Mãe Ideal (Mar, 2013)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A criança como espelho do funcionamento familiar


A família é responsável pelas principais relações, cuidados e estímulos necessários ao crescimento e desenvolvimento saudável de cada criança, principalmente durante a primeira infância.

A família, enquanto primeiro contacto da criança com o seu contexto (afetivo, cultural e social), é o modelo das suas aprendizagens e das normas e valores necessários à sua formação como pessoa. É na família que a criança encontra os primeiros “outros” e é através da relação que estabelece com eles e da observação do seu comportamento que vai aprendendo a agir e a interagir com o mundo à sua volta – são as dinâmicas familiares das quais a criança faz parte que lhe permitem construir o seu esquema conceptual, isto é, a forma como compreende e atribui significado aos pequenos pormenores do seu dia-a-dia.
Ao longo do seu desenvolvimento, é com base no que observa no seio familiar, que vai aprendendo a descortinar o mundo e a interagir com ele, imitando reações, comportamentos e expressões dos vários elementos da sua família em situações idênticas às que se encontra - cada um dos elementos da família funciona para a criança como um modelo a seguir ou um exemplo a copiar.
As interações que estabelecem com a família alargada desde tenra idade são fundamentais na construção da sua visão sobre o mundo e sobre si própria, permitindo-lhe interiorizar noções de autoestima e autoconceito necessárias para descobrir o seu meio com confiança. Desde que nasce, demonstra uma capacidade inata para aprender e apreender o mundo a sua volta e quanto mais estimulante for o contexto no qual está inserida, mais estável e construtiva será a sua formação. É fundamental que os vários familiares, principalmente os pais, disponham de um tempo afetivo e efetivo, que lhes permita estabelecer o vinculo emocional, transmitir parâmetros de comportamento e ajudar a criança a desenvolver a sua autoconfiança e a sua autoestima uma vez que a sua capacidade de aprender está intimamente ligada às experiências que vão vivenciando e aos laços de afeto que vão estabelecendo com os seus adultos de referência (mãe, pai, avós, tios …) bem como às expectativas que estes detêm sobre a criança.
As normas e valores que vão sendo demonstrados à criança pelos seus adultos cuidadores durante a infância serão a base da sua formação enquanto pessoa e estarão latentes até à vida adulta, dirigindo e modelando o seu comportamento ao longo da vida. Desta forma, cada família é responsável pelo desenvolvimento global da criança (comportamental, emocional e cognitivo) e deve estimular o seu crescimento e a sua maturação e dando-lhe ferramentas que permitam que se desenvolva de forma adaptativa e saudável.
São as relações que estabelece no seio da família que permitem à criança sentir-se amada e protegida de modo a que cresça emocionalmente equilibrada. Estes valores e afetos influenciam a forma como se entende com os outros, os amigos que escolhe, o tipo de pessoas com que se relaciona e a sua produtividade na vida escolar, acadêmica e profissional. A construção da autoconfiança desde pequena interfere diretamente na auto perceção das suas aptidões e habilidades e a impulsiona a batalhar pelo êxito na vida escolar e, posteriormente, na vida adulta. Se a relação familiar for harmoniosa, há maior probabilidade de a criança construir uma autoestima positiva e procurar caminhos de sucesso do que se a relação for conturbada ou deficiente. Neste ultimo caso, algumas crianças aprendem muito cedo a não aprender ao serem pouco estimuladas ou desvalorizadas no seu processo criativo e curioso de exploração do mundo.
A família desempenha ainda o papel de mediadora entre a criança e a sociedade, possibilitando a sua socialização, elemento essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil. A experiência familiar permite ou não que a criança desenvolva um processo de aprendizagem e adquira um conjunto de competências que vai utilizar no exterior, em situações que exigem que assuma um papel e estatutos semelhantes.

Estilos e práticas parentais
As crianças são o reflexo da educação que lhe vai sendo transmitida ao longo dos seus anos de formação e dos estilos parentais levados a cabo pelo seu circulo familiar durante todo esse processo. De entre os vários estilos parentais é possível salientar o permissivo, o autoritário, o negligente e o autoritativo.
O estilo permissivo pode ser caracterizado por padrões pouco exigentes, com limites escassos e com baixos níveis de controlo e de exigência e pais muito presentes, afetuosos e que procuram dar resposta às necessidades da criança. Frequentemente, dada a ausência de regras bem definidas, estas crianças tornam-se jovens pouco estruturados e muito dependentes dos pais.
O estilo autoritário carateriza pais rígidos e controladores que educam com base no medo e na punição. Frequentemente este estilo forma jovens depressivos e submissos, com pouca iniciativa ou jovens agressivos e com dificuldade em estabelecer relações construtivas com os outros.
O estilo negligente é caracterizado pela ausência de promoção da independência e responsabilização, em que os pais apresentam, de modo geral, comportamentos frios, desligados, indiferentes e pouco acessíveis, que não investem, nem estimulam os filhos. As crianças fruto de um ambiente negligente são, habitualmente, pouco estruturadas e demonstram dificuldades em compreender e seguir as normas sociais, bem como em lidar com outras pessoas.
O estilo autoritativo é tido como aquele que promove os melhores níveis de ajustamento nas crianças, quer a nível emocional/psicológico como a nível comportamental. Este estilo é caracterizado por comportamentos parentais firmes e racionais, que estimulam a autonomia, a confiança e a competência de forma consistente através da explicação e reflexão conjunta (que favorece a internalização de normas) como por comportamentos responsivos e afetuosos.
Não existe no entanto um manual que ensine como se funciona em família ou como se é pai e mãe. É fundamental que a família se consciencialize que é responsável pelo desenvolvimento daquele ser e pela construção dos seus alicerces. Um desenvolvimento saudável pressupõe um conjunto de laços vinculativos muito fortes a partir dos quais as crianças retiram as bases de que vão necessitar para todas as demais aprendizagens. Qualquer que seja a sua estrutura, a família mantém-se como o meio relacional básico para as relações da criança com o mundo.

Estratégias para potenciar relações construtivas
-           Procure programas em família. Passeios, picnics, idas ao cinema e a museus são ótimas oportunidades de quebrar com a rotina e passar algum tempo em família.
-           Valorize o tempo de qualidade (vs de quantidade). É fundamental que tire algum tempo da sua rotina para estar mesmo com a sua criança, brincar com ela, responder às suas questões ou contar-lhe uma história (desligue a televisão, afaste jornais e revistas e tire o som do telefone se for necessário).
-           Introduza pequenos jogos nas rotinas, que sejam estimulantes e divertidos. Os jogos, para além de melhorarem as habilidades cognitivas e sociais das crianças, favorecem o sentimento de família e a relação entre os vários elementos.
-           Fomente os valores familiares. Procure, nos pequenos momentos do dia-a-dia, valorizar as relações familiares envolvendo a criança nessas interações – escreva cartas ou emails aos familiares mais distantes (a criança poderá fazer um desenho para enviar), telefone ou tire algum tempo para um almoço em família alargada ao fim de semana.
-           Demonstre os princípios e valores que quer que a sua criança adquira. As crianças aprendem pelo exemplo e a melhor forma de a ensinar é demonstrando-lhe o que quer que ela aprenda.

Uma criança fruto de um ambiente tranquilo, cercada de carinho e amor e balizada por regras e limites bem estruturados, terá uma maior probabilidade de vir a ser, no futuro, um ser humano mais seguro e confiante.
Artigo publicado na revista Mãe Ideal (Fev, 2013)

sábado, 2 de março de 2013

Instinto Maternal



Ter instinto maternal não significa ser uma mãe perfeita e fazer tudo bem à primeira. É um impulso sentido pela maioria das mulheres que as leva a responder às necessidades do filho que acabou de nascer, segundo vários graus de intensidade e dependendo das características de ambos.

Ser mãe é, para muitas mulheres, o grande sonho/objetivo das suas vidas que começa desde tenra idade e se espelha na forma como, ainda meninas, cuidam e mimam as suas bonecas, as embalam para as “adormecer”, as alimentam com comida faz de conta e as vestem com roupas bonitas aconchegantes. Existem meninas tão apegadas às suas bonecas que só a ideia de se apartarem delas, mesmo que por breves instantes, é deveras perturbador.
Embora ser mãe não seja o mesmo que brincar às bonecas, muitos dos impulsos de cuidar representados pelas meninas nas suas brincadeiras refletem os comportamentos base da maternidade. Cuidar, alimentar, proteger e ajudar a crescer e a tornar-se autónomo são algumas das tarefas que é esperado que a mãe desempenhe junto do seu bebé para que este se vá desenvolvendo de forma saudável, equilibrada e feliz.
Ao contrário de tantas outras tarefas que se podem aprender na escola, não há aulas que ensinem uma mulher a ser mãe (embora já existam aulas que ajudam os futuros pais a lidar com alguns momentos da maternidade) nem tão pouco é algo que se aprenda lendo livros ou vendo documentários - é algo que se compreende e se melhora com a experiência da maternidade em si mesma. Algumas mulheres demonstram uma vocação inata para serem mães, que  parece que foram talhadas para serem mães, e outras adquirem-na com a prática e com o treino.
A propensão que algumas mulheres demonstram para cuidar e proteger os seus filhos é muitas vezes chamada de instinto maternal e envolve o conjunto de ações que as leva a responder às necessidades do bebé de uma forma inata/ instintiva. Este é considerado latente nas mulheres desde tenra idade e é a ele que se deve a disponibilidade para prestar atenção aos seus filhos, garantindo as necessidades básicas ao seu desenvolvimento e, consequentemente à subsistência da sua espécie.
O instinto maternal está presente nas várias espécies e prende-se com o impulso que leva as mães/progenitoras a assegurar as necessidades básicas dos seus recém-nascidos de modo a assegurar a continuação da espécie. Ao seu encargo fica a alimentação, o aconchego e a proteção dos seus bebés de modo a que estes possam crescer e tornarem-se independentes do seu cuidado. Nos seres humanos, contudo, o instinto maternal não se extingue no momento em que a mãe deixa de amamentar, ele estende se ao longo da vida e acarreta questões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, talvez porque de entre os vários recém-nascidos o bebé humano é o mais dependente dos cuidados e atenções da sua mãe ou talvez devido ao impacto da na nossa cultura e dos valores sociais na construção da ideia de instinto maternal.
Tendo também base cultural, o instinto maternal tem vindo ajustar-se às mudanças na sociedade, nomeadamente no que se refere ao papel das mulheres como mulheres, trabalhadoras e mães. A integração das mulheres no mundo profissional e a frequente aposta no crescimento e consolidação de uma carreira, tornou usual o adiar do relógio biológico no que toca à maternidade uma vez que existe uma coincidência entre os melhores anos na vida da mulher para ser mãe e para a construção e consolidação de uma carreira. Paralelamente a mulher deixou de ser vista só como mãe e cuidadora e muitas optam hoje por não considerar a maternidade como um objetivo de vida independentemente de sentirem ou não instinto para tal e também esta opção deve ser respeitada.    
No entanto o instinto maternal não está só diretamente relacionada com o facto de ter sido mãe. Muitas mulheres sentem este impulso junto de crianças mesmo antes de gerarem o seu primeiro filho. Tal facto explica a razão da existência de instinto maternal nas mães adotivas – embora não tenham concebido a criança desenvolvem o impulso de cuidar e proteger o filho que acolhem por sua vontade.

Instinto Maternal vs Amor Maternal
 Embora usados para se referir à mesma situação, o instinto maternal é diferente do amor maternal uma vez que o primeiro diz respeito à capacidade de assegurar a sobrevivência física do recém-nascido, o segundo é uma construção afetiva continua e continuada entre a mãe e o seu bebé. O “amor maternal” pode ser definido como o conjunto de sentimentos e afectos entre a mãe e o filho que traduz uma relação de carinho e ternura, enquanto o “instinto maternal” pode existir na mulher em presença de uma criança, independentemente de ser ou não mãe.
Ideialmente, no momento em que a criança nasce, o amor e o instinto maternal estão em sintonia na mãe e, enquanto o instinto se vai tornando mais ténue ao longo dos anos, o amor, por contraposto, vai aumentando e perdura para toda a vida. Existem no entanto alguns casos em que tal não se verifica e a mãe é uma excelente cuidadora mas tem dificuldade em gerir e demonstrar o seu afeto para como o seu filho ou pelo contrário, que tem “um amor do tamanho do mundo” mas evidencia menos facilidade em cuidar do seu bebé.
No caso de um dos dois não estar desenvolvido é importante que a mãe se treine quer para desempenhar as tarefas do cuidar (alimentar, dar banho, mudar a fralda) quer em estabelecer com o seu bebé uma relação de afeto (valorizando os momentos de toque, o olhar e a conversa com este).

Os homens também têm instinto maternal?
Pensar em instinto maternal leva-nos a considerar a maternidade biológica como a base e, por isso mesmo, algo que consideramos exclusivo das mulheres. No entanto os homens também podem ter gestos de ternura e de cuidado, que muitas vezes reprimem por socialmente se considerarem atitudes pouco masculinas.
Quando o pai assume um papel activo como cuidados poderá fazê-lo tão bem como a mãe, facto que tem levado a que alguns pais fiquem com a custódia dos filhos aquando das separações.  Quando um homem e uma mulher se tornam pais, ambos são igualmente responsáveis pelos cuidados dos seus filhos.


Mitos sobre o instinto Maternal
De entre os vários mitos sobre instinto maternal, a forma de brincar das meninas pequenas é frequentemente associado ao seu futuro comportamente como mãe. Há quem diga que a forma como cuidam das bonecas é um otimo indicador de instinto maternal, em contraponto com gostarem de “brincadeiras de rapaz”, que é sinal que virão a ser más cuidadoras. No entanto não há qualquer relação entre os dois acontecimentos - há meninas que nunca brincaram com bonecas e se revelam mães fantásticas e há meninas que brincaram imenso às casinhas e o seu instinto maternal não é tão notório ou decidem não ter filhos.
Um outro mito diz respeito à relação que cada mulher estabeleceu com a sua mãe durante criança e como isso a influenciará como mãe. Embora seja aceite que estabelecemos os nossos padrões comportamentais precocemente, mulheres que vivenciaram situações menos construtivas podem tornar-se excelentes cuidadoras, procurando não transmitir aos filhos as lacunas que sentiram enquanto crianças. Outras, vez sua vez, foram crianças muito amadas e acarinhadas mas revelam-se adultas frias e distantes.
O terceiro mito refere-se ao facto do instinto maternal, enquanto impulso para cuidar de crianças pequenas e forma de expressar o desejo de conservar e promover a vida,  é algo exclusivo das mulheres. Se por um lado as mulheres têm o privilégio de gerar e dar à luz, o impulso base do instinto maternal pode ser visível em alguns pais/homens.


Importa ressaltar que ninguém “nasce ensinado” e, deste modo, embora para muitos o instinto maternal seja um impulso inato, pode ser melhorado e aperfeiçoado com o treino e com a prática – não se nasce pronta para ser mãe, mas todas as mulheres se podem preparar para o serem!
Artigo publicado na revista Mãe Ideial (Jan 2013)