quinta-feira, 25 de abril de 2013

A criança como espelho do funcionamento familiar


A família é responsável pelas principais relações, cuidados e estímulos necessários ao crescimento e desenvolvimento saudável de cada criança, principalmente durante a primeira infância.

A família, enquanto primeiro contacto da criança com o seu contexto (afetivo, cultural e social), é o modelo das suas aprendizagens e das normas e valores necessários à sua formação como pessoa. É na família que a criança encontra os primeiros “outros” e é através da relação que estabelece com eles e da observação do seu comportamento que vai aprendendo a agir e a interagir com o mundo à sua volta – são as dinâmicas familiares das quais a criança faz parte que lhe permitem construir o seu esquema conceptual, isto é, a forma como compreende e atribui significado aos pequenos pormenores do seu dia-a-dia.
Ao longo do seu desenvolvimento, é com base no que observa no seio familiar, que vai aprendendo a descortinar o mundo e a interagir com ele, imitando reações, comportamentos e expressões dos vários elementos da sua família em situações idênticas às que se encontra - cada um dos elementos da família funciona para a criança como um modelo a seguir ou um exemplo a copiar.
As interações que estabelecem com a família alargada desde tenra idade são fundamentais na construção da sua visão sobre o mundo e sobre si própria, permitindo-lhe interiorizar noções de autoestima e autoconceito necessárias para descobrir o seu meio com confiança. Desde que nasce, demonstra uma capacidade inata para aprender e apreender o mundo a sua volta e quanto mais estimulante for o contexto no qual está inserida, mais estável e construtiva será a sua formação. É fundamental que os vários familiares, principalmente os pais, disponham de um tempo afetivo e efetivo, que lhes permita estabelecer o vinculo emocional, transmitir parâmetros de comportamento e ajudar a criança a desenvolver a sua autoconfiança e a sua autoestima uma vez que a sua capacidade de aprender está intimamente ligada às experiências que vão vivenciando e aos laços de afeto que vão estabelecendo com os seus adultos de referência (mãe, pai, avós, tios …) bem como às expectativas que estes detêm sobre a criança.
As normas e valores que vão sendo demonstrados à criança pelos seus adultos cuidadores durante a infância serão a base da sua formação enquanto pessoa e estarão latentes até à vida adulta, dirigindo e modelando o seu comportamento ao longo da vida. Desta forma, cada família é responsável pelo desenvolvimento global da criança (comportamental, emocional e cognitivo) e deve estimular o seu crescimento e a sua maturação e dando-lhe ferramentas que permitam que se desenvolva de forma adaptativa e saudável.
São as relações que estabelece no seio da família que permitem à criança sentir-se amada e protegida de modo a que cresça emocionalmente equilibrada. Estes valores e afetos influenciam a forma como se entende com os outros, os amigos que escolhe, o tipo de pessoas com que se relaciona e a sua produtividade na vida escolar, acadêmica e profissional. A construção da autoconfiança desde pequena interfere diretamente na auto perceção das suas aptidões e habilidades e a impulsiona a batalhar pelo êxito na vida escolar e, posteriormente, na vida adulta. Se a relação familiar for harmoniosa, há maior probabilidade de a criança construir uma autoestima positiva e procurar caminhos de sucesso do que se a relação for conturbada ou deficiente. Neste ultimo caso, algumas crianças aprendem muito cedo a não aprender ao serem pouco estimuladas ou desvalorizadas no seu processo criativo e curioso de exploração do mundo.
A família desempenha ainda o papel de mediadora entre a criança e a sociedade, possibilitando a sua socialização, elemento essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil. A experiência familiar permite ou não que a criança desenvolva um processo de aprendizagem e adquira um conjunto de competências que vai utilizar no exterior, em situações que exigem que assuma um papel e estatutos semelhantes.

Estilos e práticas parentais
As crianças são o reflexo da educação que lhe vai sendo transmitida ao longo dos seus anos de formação e dos estilos parentais levados a cabo pelo seu circulo familiar durante todo esse processo. De entre os vários estilos parentais é possível salientar o permissivo, o autoritário, o negligente e o autoritativo.
O estilo permissivo pode ser caracterizado por padrões pouco exigentes, com limites escassos e com baixos níveis de controlo e de exigência e pais muito presentes, afetuosos e que procuram dar resposta às necessidades da criança. Frequentemente, dada a ausência de regras bem definidas, estas crianças tornam-se jovens pouco estruturados e muito dependentes dos pais.
O estilo autoritário carateriza pais rígidos e controladores que educam com base no medo e na punição. Frequentemente este estilo forma jovens depressivos e submissos, com pouca iniciativa ou jovens agressivos e com dificuldade em estabelecer relações construtivas com os outros.
O estilo negligente é caracterizado pela ausência de promoção da independência e responsabilização, em que os pais apresentam, de modo geral, comportamentos frios, desligados, indiferentes e pouco acessíveis, que não investem, nem estimulam os filhos. As crianças fruto de um ambiente negligente são, habitualmente, pouco estruturadas e demonstram dificuldades em compreender e seguir as normas sociais, bem como em lidar com outras pessoas.
O estilo autoritativo é tido como aquele que promove os melhores níveis de ajustamento nas crianças, quer a nível emocional/psicológico como a nível comportamental. Este estilo é caracterizado por comportamentos parentais firmes e racionais, que estimulam a autonomia, a confiança e a competência de forma consistente através da explicação e reflexão conjunta (que favorece a internalização de normas) como por comportamentos responsivos e afetuosos.
Não existe no entanto um manual que ensine como se funciona em família ou como se é pai e mãe. É fundamental que a família se consciencialize que é responsável pelo desenvolvimento daquele ser e pela construção dos seus alicerces. Um desenvolvimento saudável pressupõe um conjunto de laços vinculativos muito fortes a partir dos quais as crianças retiram as bases de que vão necessitar para todas as demais aprendizagens. Qualquer que seja a sua estrutura, a família mantém-se como o meio relacional básico para as relações da criança com o mundo.

Estratégias para potenciar relações construtivas
-           Procure programas em família. Passeios, picnics, idas ao cinema e a museus são ótimas oportunidades de quebrar com a rotina e passar algum tempo em família.
-           Valorize o tempo de qualidade (vs de quantidade). É fundamental que tire algum tempo da sua rotina para estar mesmo com a sua criança, brincar com ela, responder às suas questões ou contar-lhe uma história (desligue a televisão, afaste jornais e revistas e tire o som do telefone se for necessário).
-           Introduza pequenos jogos nas rotinas, que sejam estimulantes e divertidos. Os jogos, para além de melhorarem as habilidades cognitivas e sociais das crianças, favorecem o sentimento de família e a relação entre os vários elementos.
-           Fomente os valores familiares. Procure, nos pequenos momentos do dia-a-dia, valorizar as relações familiares envolvendo a criança nessas interações – escreva cartas ou emails aos familiares mais distantes (a criança poderá fazer um desenho para enviar), telefone ou tire algum tempo para um almoço em família alargada ao fim de semana.
-           Demonstre os princípios e valores que quer que a sua criança adquira. As crianças aprendem pelo exemplo e a melhor forma de a ensinar é demonstrando-lhe o que quer que ela aprenda.

Uma criança fruto de um ambiente tranquilo, cercada de carinho e amor e balizada por regras e limites bem estruturados, terá uma maior probabilidade de vir a ser, no futuro, um ser humano mais seguro e confiante.
Artigo publicado na revista Mãe Ideal (Fev, 2013)

sábado, 2 de março de 2013

Instinto Maternal



Ter instinto maternal não significa ser uma mãe perfeita e fazer tudo bem à primeira. É um impulso sentido pela maioria das mulheres que as leva a responder às necessidades do filho que acabou de nascer, segundo vários graus de intensidade e dependendo das características de ambos.

Ser mãe é, para muitas mulheres, o grande sonho/objetivo das suas vidas que começa desde tenra idade e se espelha na forma como, ainda meninas, cuidam e mimam as suas bonecas, as embalam para as “adormecer”, as alimentam com comida faz de conta e as vestem com roupas bonitas aconchegantes. Existem meninas tão apegadas às suas bonecas que só a ideia de se apartarem delas, mesmo que por breves instantes, é deveras perturbador.
Embora ser mãe não seja o mesmo que brincar às bonecas, muitos dos impulsos de cuidar representados pelas meninas nas suas brincadeiras refletem os comportamentos base da maternidade. Cuidar, alimentar, proteger e ajudar a crescer e a tornar-se autónomo são algumas das tarefas que é esperado que a mãe desempenhe junto do seu bebé para que este se vá desenvolvendo de forma saudável, equilibrada e feliz.
Ao contrário de tantas outras tarefas que se podem aprender na escola, não há aulas que ensinem uma mulher a ser mãe (embora já existam aulas que ajudam os futuros pais a lidar com alguns momentos da maternidade) nem tão pouco é algo que se aprenda lendo livros ou vendo documentários - é algo que se compreende e se melhora com a experiência da maternidade em si mesma. Algumas mulheres demonstram uma vocação inata para serem mães, que  parece que foram talhadas para serem mães, e outras adquirem-na com a prática e com o treino.
A propensão que algumas mulheres demonstram para cuidar e proteger os seus filhos é muitas vezes chamada de instinto maternal e envolve o conjunto de ações que as leva a responder às necessidades do bebé de uma forma inata/ instintiva. Este é considerado latente nas mulheres desde tenra idade e é a ele que se deve a disponibilidade para prestar atenção aos seus filhos, garantindo as necessidades básicas ao seu desenvolvimento e, consequentemente à subsistência da sua espécie.
O instinto maternal está presente nas várias espécies e prende-se com o impulso que leva as mães/progenitoras a assegurar as necessidades básicas dos seus recém-nascidos de modo a assegurar a continuação da espécie. Ao seu encargo fica a alimentação, o aconchego e a proteção dos seus bebés de modo a que estes possam crescer e tornarem-se independentes do seu cuidado. Nos seres humanos, contudo, o instinto maternal não se extingue no momento em que a mãe deixa de amamentar, ele estende se ao longo da vida e acarreta questões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, talvez porque de entre os vários recém-nascidos o bebé humano é o mais dependente dos cuidados e atenções da sua mãe ou talvez devido ao impacto da na nossa cultura e dos valores sociais na construção da ideia de instinto maternal.
Tendo também base cultural, o instinto maternal tem vindo ajustar-se às mudanças na sociedade, nomeadamente no que se refere ao papel das mulheres como mulheres, trabalhadoras e mães. A integração das mulheres no mundo profissional e a frequente aposta no crescimento e consolidação de uma carreira, tornou usual o adiar do relógio biológico no que toca à maternidade uma vez que existe uma coincidência entre os melhores anos na vida da mulher para ser mãe e para a construção e consolidação de uma carreira. Paralelamente a mulher deixou de ser vista só como mãe e cuidadora e muitas optam hoje por não considerar a maternidade como um objetivo de vida independentemente de sentirem ou não instinto para tal e também esta opção deve ser respeitada.    
No entanto o instinto maternal não está só diretamente relacionada com o facto de ter sido mãe. Muitas mulheres sentem este impulso junto de crianças mesmo antes de gerarem o seu primeiro filho. Tal facto explica a razão da existência de instinto maternal nas mães adotivas – embora não tenham concebido a criança desenvolvem o impulso de cuidar e proteger o filho que acolhem por sua vontade.

Instinto Maternal vs Amor Maternal
 Embora usados para se referir à mesma situação, o instinto maternal é diferente do amor maternal uma vez que o primeiro diz respeito à capacidade de assegurar a sobrevivência física do recém-nascido, o segundo é uma construção afetiva continua e continuada entre a mãe e o seu bebé. O “amor maternal” pode ser definido como o conjunto de sentimentos e afectos entre a mãe e o filho que traduz uma relação de carinho e ternura, enquanto o “instinto maternal” pode existir na mulher em presença de uma criança, independentemente de ser ou não mãe.
Ideialmente, no momento em que a criança nasce, o amor e o instinto maternal estão em sintonia na mãe e, enquanto o instinto se vai tornando mais ténue ao longo dos anos, o amor, por contraposto, vai aumentando e perdura para toda a vida. Existem no entanto alguns casos em que tal não se verifica e a mãe é uma excelente cuidadora mas tem dificuldade em gerir e demonstrar o seu afeto para como o seu filho ou pelo contrário, que tem “um amor do tamanho do mundo” mas evidencia menos facilidade em cuidar do seu bebé.
No caso de um dos dois não estar desenvolvido é importante que a mãe se treine quer para desempenhar as tarefas do cuidar (alimentar, dar banho, mudar a fralda) quer em estabelecer com o seu bebé uma relação de afeto (valorizando os momentos de toque, o olhar e a conversa com este).

Os homens também têm instinto maternal?
Pensar em instinto maternal leva-nos a considerar a maternidade biológica como a base e, por isso mesmo, algo que consideramos exclusivo das mulheres. No entanto os homens também podem ter gestos de ternura e de cuidado, que muitas vezes reprimem por socialmente se considerarem atitudes pouco masculinas.
Quando o pai assume um papel activo como cuidados poderá fazê-lo tão bem como a mãe, facto que tem levado a que alguns pais fiquem com a custódia dos filhos aquando das separações.  Quando um homem e uma mulher se tornam pais, ambos são igualmente responsáveis pelos cuidados dos seus filhos.


Mitos sobre o instinto Maternal
De entre os vários mitos sobre instinto maternal, a forma de brincar das meninas pequenas é frequentemente associado ao seu futuro comportamente como mãe. Há quem diga que a forma como cuidam das bonecas é um otimo indicador de instinto maternal, em contraponto com gostarem de “brincadeiras de rapaz”, que é sinal que virão a ser más cuidadoras. No entanto não há qualquer relação entre os dois acontecimentos - há meninas que nunca brincaram com bonecas e se revelam mães fantásticas e há meninas que brincaram imenso às casinhas e o seu instinto maternal não é tão notório ou decidem não ter filhos.
Um outro mito diz respeito à relação que cada mulher estabeleceu com a sua mãe durante criança e como isso a influenciará como mãe. Embora seja aceite que estabelecemos os nossos padrões comportamentais precocemente, mulheres que vivenciaram situações menos construtivas podem tornar-se excelentes cuidadoras, procurando não transmitir aos filhos as lacunas que sentiram enquanto crianças. Outras, vez sua vez, foram crianças muito amadas e acarinhadas mas revelam-se adultas frias e distantes.
O terceiro mito refere-se ao facto do instinto maternal, enquanto impulso para cuidar de crianças pequenas e forma de expressar o desejo de conservar e promover a vida,  é algo exclusivo das mulheres. Se por um lado as mulheres têm o privilégio de gerar e dar à luz, o impulso base do instinto maternal pode ser visível em alguns pais/homens.


Importa ressaltar que ninguém “nasce ensinado” e, deste modo, embora para muitos o instinto maternal seja um impulso inato, pode ser melhorado e aperfeiçoado com o treino e com a prática – não se nasce pronta para ser mãe, mas todas as mulheres se podem preparar para o serem!
Artigo publicado na revista Mãe Ideial (Jan 2013)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A pessoa por detrás da máscara



O Carnaval é a altura do ano em que muito de nós despem as roupas quotidianas para, entre sonhos e fantasias, recriarem personagens.
Durante as semanas carnavalescas é-nos permitido representar um papel, vestindo-nos e agindo segundo os padrões criados por nós de modo a tornar reais os disfarces que escolhemos. E, “por ser Carnaval, ninguém leva a mal” essa representação.
No entanto, passada a época carnavalesca, muitas são as máscaras que continuam postas, não com o intuito de imitar uma personagem, mas de recriar uma forma de ser/agir que se adeque aos vários contextos em que cada um está inserido. Este facto é-nos culturalmente incitado pela nossa sociedade, por exemplo, através das campanhas de marketing e publicidade, que nos transmitem a necessidade do parecer com intuito de a aumentar vendas e lucros e o seu impacto no mercado.
E é em contexto social que surge a necessidade de nos representarmos a nós mesmos, procurando suplantar todas as obrigações quotidianas, transmitindo um semblante que muitas vezes não transmite o real valor de cada um.
Embora seja necessário que nos ambientemos e adaptemos aos contextos nos quais estamos inseridos, é fundamental que saibamos agir nos mesmos de acordo com as nossas crenças e valores e não apenas tendo em conta as expectativas sociais depositadas em nós.
É necessário que saibamos agir de forma adequada mas genuína, procurando ir para além da representação de papéis e sendo autênticos. Tal como foi referido por Goleman (1995), ao agirmos de forma mais autêntica podemos vivenciar os acontecimentos de uma forma mais dolorosa, no entanto, iremos certamente constatar que a vida será vivida com mais intensidade e significado dado que “os nossos sentimentos mais profundos, as nossas paixões e desejos, são guias essenciais do nosso funcionamento”.
Embora a autenticidade seja por vezes confundida com a necessidade de ser diferente, este conceito é muito mais lato. Ser autêntico significa ter personalidade, ser verdadeiro e ser único, agindo de acordo com as suas crenças e conceções através de uma forma própria de agir, falar, andar, pensar, comportar-se e sentir.
A busca pela autenticidade promove igualmente o desenvolvimento das capacidades sócio-emocionais, cuja consequência é o aumento da motivação e a melhoria do desempenho escolar/profissional dos vários sujeitos.
Neste sentido, é importante cultivarmos a nosso ser autêntico, deixando as máscaras pessoais apenas para alturas Carnavalescas.

Algumas ideias cultivar a autenticidade:
·  Aprender a valorizar as coisas simples, tais como os pormenores da nossa forma de ser e agir;
·  Não bloquear os sonhos e ambições, procurando enquadrá-los no nosso dia-a-dia;
·  Fomentar comportamentos afetivos nos mais diversos momentos, de forma simples e espontânea, através de gestos ou de palavras;
·  Valorizar o elogio sincero e a crítica construtiva;
·  Não ter medo de expressar emoções, sejam elas de alegria e contentamento ou de tristeza e desilusão.

Votos de um bom Carnaval.
Artigo escrito para o site Akademia (Fev 2011, adapt.)